O lado B da notícia > Flip 200903/07/2009 - 13h02
A comédia da vida privada
Aqui na Flip, o "eu" é o prato principal de diversas mesas
Natalia Barrenha e Isaac Pipano, de Paraty (RJ)
Nesta sexta (3), Mario Bellatin e Cristovão Tezza discutem o papel da experiência pessoal na literatura. A crítica de arte francesa Catherine Millet, que expôs sua rotina picante e depois seus surtos de ciúmes, conversa domingo (5) com a psicanalista Maria Rita Kehl. No sábado (4), a artista plástica Sophie Calle e o escritor Grégoire Bouillier ofuscam de vez as fronteiras entre o público e o privado, o real e a ficção, na mesa intitulada Entre quatro paredes - doce paradoxo.
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Aos 55 anos, Sophie Calle é uma das artistas mais celebradas da França. Porém, revelou-se ao resto do mundo recentemente com a exposição Prenez soin de vous, que já passou por vários países e chega a São Paulo, no Sesc Pompeia, em 10 de julho, e depois parte para o Museu de Arte Moderna da Bahia em 22 de setembro. Em Prenez soin de vous - ou Cuide de você (www.sophiecalle.com.br), como foi intitulada no Brasil - Sophie pede a 107 mulheres, famosas e anônimas, de diversas nacionalidades e profissões, para interpretar o e-mail de rompimento que recebeu de seu ex-namorado, o escritor Grégoire Bouillier (!), cujo livro O convidado surpresa, lançado aqui na Flip, traz alguns momentos do relacionamento dos dois. Vai ser a primeira vez que Calle e Bouillier se encontrarão publicamente desde o rompimento.
Catherine Millet não se parece nada com a mulher descrita em seus dois livros exclusivamente baseados em sua vida. A sóbria e refinada intelectual francesa, hoje com 61 anos, crítica de arte e fundadora-editora da ArtPress, uma das mais conceituadas publicações de arte da França, chacoalhou o mundo literário e artístico em 2002, quando lançou A vida sexual de Catherine M., que vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares em 47 países, e no qual conta sua extravagante e arrebatada vida sexual. Seis anos e muitas polêmicas depois, Catherine aparece enlouquecida com seu ciúme desvairado em A outra vida de Catherine M. (ou Dia de sofrimento, também lançado aqui na Flip), onde a outrora mulher tão libertina com sua própria sexualidade descontrola-se com as infidelidades do marido.
Durante a coletiva de imprensa, as francesas não escaparam das perguntas envolvendo suas intimidades. "Durante minhas experiências, minha personagem já procura palavras para expor aquilo na literatura. E todos os humanos são assim, na verdade: eles sempre procuram circunstâncias para montar um espetáculo de sua própria vida", explicou Catherine, que também afirmou não saber inventar histórias: tudo o que ela conta é inspirado no que viveu. "As únicas ficções em meus livros são as minhas fantasias, e o caminho que escolhi seguir formalmente: o formato tradicional do romance", continua.
Já Sophie alfinetou os jornalistas mais indiscretos afirmando que ninguém a pode conhecer somente pela sua obra. "A vida é diferente de minha obra. Eu falo de coisas banais: não é a minha intimidade que estou contando". Com uma malícia deliciosa e divertida, Millet respondeu ao mesmo questionamento com bom humor: "Por que você quer saber, se interessou de verdade em minha intimidade?". Charmosa daquele jeito, impossível não se interessar.


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