O lado B da notícia > Flip 200903/07/2009 - 13h02

A comédia da vida privada

Aqui na Flip, o "eu" é o prato principal de diversas mesas

Natalia Barrenha e Isaac Pipano, de Paraty (RJ)

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Autoficção, memórias, autobiografia, diário. Em tempos de Big Brother e de competição com a realidade, a primeira pessoa está na moda na literatura e nas artes. Aqui na Flip, o "eu" é o prato principal de diversas mesas, estando presente inclusive na programação paralela. Na quinta-feira (2), David Foenkinos lançou seu livro Quem se lembra de David Foenkinos, que com muito bom humor traz esse embaralhamento tão presente na arte contemporânea.

Nesta sexta (3), Mario Bellatin e Cristovão Tezza discutem o papel da experiência pessoal na literatura. A crítica de arte francesa Catherine Millet, que expôs sua rotina picante e depois seus surtos de ciúmes, conversa domingo (5) com a psicanalista Maria Rita Kehl. No sábado (4), a artista plástica Sophie Calle e o escritor Grégoire Bouillier ofuscam de vez as fronteiras entre o público e o privado, o real e a ficção, na mesa intitulada Entre quatro paredes - doce paradoxo.

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Aos 55 anos, Sophie Calle é uma das artistas mais celebradas da França. Porém, revelou-se ao resto do mundo recentemente com a exposição Prenez soin de vous, que já passou por vários países e chega a São Paulo, no Sesc Pompeia, em 10 de julho, e depois parte para o Museu de Arte Moderna da Bahia em 22 de setembro. Em Prenez soin de vous - ou Cuide de você (www.sophiecalle.com.br), como foi intitulada no Brasil - Sophie pede a 107 mulheres, famosas e anônimas, de diversas nacionalidades e profissões, para interpretar o e-mail de rompimento que recebeu de seu ex-namorado, o escritor Grégoire Bouillier (!), cujo livro O convidado surpresa, lançado aqui na Flip, traz alguns momentos do relacionamento dos dois. Vai ser a primeira vez que Calle e Bouillier se encontrarão publicamente desde o rompimento.

Catherine Millet não se parece nada com a mulher descrita em seus dois livros exclusivamente baseados em sua vida. A sóbria e refinada intelectual francesa, hoje com 61 anos, crítica de arte e fundadora-editora da ArtPress, uma das mais conceituadas publicações de arte da França, chacoalhou o mundo literário e artístico em 2002, quando lançou A vida sexual de Catherine M., que vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares em 47 países, e no qual conta sua extravagante e arrebatada vida sexual. Seis anos e muitas polêmicas depois, Catherine aparece enlouquecida com seu ciúme desvairado em A outra vida de Catherine M. (ou Dia de sofrimento, também lançado aqui na Flip), onde a outrora mulher tão libertina com sua própria sexualidade descontrola-se com as infidelidades do marido.

Durante a coletiva de imprensa, as francesas não escaparam das perguntas envolvendo suas intimidades. "Durante minhas experiências, minha personagem já procura palavras para expor aquilo na literatura. E todos os humanos são assim, na verdade: eles sempre procuram circunstâncias para montar um espetáculo de sua própria vida", explicou Catherine, que também afirmou não saber inventar histórias: tudo o que ela conta é inspirado no que viveu. "As únicas ficções em meus livros são as minhas fantasias, e o caminho que escolhi seguir formalmente: o formato tradicional do romance", continua.

Já Sophie alfinetou os jornalistas mais indiscretos afirmando que ninguém a pode conhecer somente pela sua obra. "A vida é diferente de minha obra. Eu falo de coisas banais: não é a minha intimidade que estou contando". Com uma malícia deliciosa e divertida, Millet respondeu ao mesmo questionamento com bom humor: "Por que você quer saber, se interessou de verdade em minha intimidade?". Charmosa daquele jeito, impossível não se interessar.

A coletiva de Sophie Calle e Catherine Millet

A coletiva de Sophie Calle e Catherine Millet